"O inverno já está quase acabando
Boneco de neve, tome cuidado
O sol virá pra derreter
Com a primavera para aquecer
É meia noite, no céu a lua a brilhar
Com as estrelas brincando até o sol raiar
Ao perceber que o boneco estava a derreter,
Um toque mágico soprou, ele se transformou
E assim nasceu Bouli
Com seu chapéu, narizinho vermelho
Bouli é um bonito boneco de neve
Com seu chapéu, narizinho vermelho
Boneco de neve nos seus sonhos me leve..."
Bouli - o boneco de neve - é quixotescamente belo. Em face de sua morte simbólica (do derretimento de sua forma inanimada de neve), sua vida não lhe é restituída, mas sim desmerecidamente concedida. E Bouli sorri: nem mesmo o esclarecimento mais completo da confusão semântica que iniciou seu ser poderá, de forma alguma, destituir-lhe da posse que agora tem sobre si e sobre seu próprio (e vermelho) nariz.
terça-feira, 19 de maio de 2009
sexta-feira, 15 de maio de 2009
Ahan, bonzinho
A inaptidão para o mal nem sempre é fruto de uma índole bondosa e/ou solidária; não. Em alguns casos, ela é antes resultado da própria incapacidade, da própria ignorância do indivíduo. Isto de certa desmistifica o "bom": não raro, o que é tido como pureza de caráter não é senão a conseqüência involuntária de um acefalismo brutal. É por isso que talvez muitos de nossos santos e mártires não tenham sido nada além de tolos, néscios que, após reagirem de maneira grosseira diante de uma agonia cega, tiveram seus atos bem-aventuradamente interpretados por expectadores igualmente inescrupulosos. A incapacidade individual, após ser amplificada por um coro de incapacidades, cria portanto uma muralha intransponível, que não pode ser superada ou perfurada por qualquer tipo de lógica - e é exatamente nisto que reside o poder do povo.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
Plúmbeo
Cansada, pousou sua cabeça sobre o peito dele, numa dessas tardes meio douradas, meio acobreadas, meio absolutas. Diante dessa proximidade, apressou-se o coração a lhe cochichar (alegremente seus) segredos, medos e metais pesados. Beijou-o, deixou-se beijar, e adormeceu na implacável expressão de quem guarda na boca o gosto doce de algodão doce.
Sentido: fazemos sentido; não estamos sentidos; somos sentidos; cinco são os sentidos, mas muitos mais são os sentidos para sentido. Nascemos e vivemos e renascemos e revivemos de ocasos e acasos, como que intermediados por um destino que, suave, sugere:
Sejam felizes.
E independente de tempos verbais, somos, estamos e seremos. Nosso verbo é essa atração impetuosa que trespassa as distâncias em todos seus asfaltados e esburacados quilômetros, embriagada pela felicidade abestalhada de quem, verdadeiramente, ama.
;)
Sentido: fazemos sentido; não estamos sentidos; somos sentidos; cinco são os sentidos, mas muitos mais são os sentidos para sentido. Nascemos e vivemos e renascemos e revivemos de ocasos e acasos, como que intermediados por um destino que, suave, sugere:
Sejam felizes.
E independente de tempos verbais, somos, estamos e seremos. Nosso verbo é essa atração impetuosa que trespassa as distâncias em todos seus asfaltados e esburacados quilômetros, embriagada pela felicidade abestalhada de quem, verdadeiramente, ama.
;)
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
Bluebells: à beira de si
Tocam com força os sinos desse porto tão próximo: sinos azuis, potentes, de aço. Já tinha ouvido isso antes, quando? Os bléin-bléin pareciam tão novos e... desconhecidos... era isso: era como se o próprio desconhecido a invocasse de muito longe, de uma terra onde nem os revolucionários navios a vapor, que não respeitavam os ventos, eram capazes de chegar.
Ela olha as próprias mãos, só então percebendo como eram grosseiras e calosas. Mas ao menos tinham estória aquelas mãos, é o que pensa. Sente a terra tremer furiosa, por três vezes; e de novo aquele medo da porra percorre todo o seu corpo, explorando suas entranhas, zombando de suas dúvidas.
Pergunta-se, eu realmente preciso ir embora? Ah, merda - preciso, claro que preciso. Ouve os sinos tocarem novamente, lembrando-se que, agora, poderá ser quem quiser ser. Assim, de verdade! Suas comportadas máscaras de porcelana - convenientíssimas - ficarão aqui, para trás, e ela rir-se-á delas em referências futuras, quando a idade já lhe tiver levado a saúde e prateado seus cabelos.
Hoje até podia saber de muito pouco, saber de quase nada. Mas disto tinha certeza: ali, naquele porto, ao som azul daqueles sinos, haveria um marco magnificamente discreto, onde uma caligrafia improvisada diria, eterna:
E canta: à beira de mim mesma, aguardo, tensa: será exatamente nesse mundo vasto que aprenderei a desfazer-me de mim, a fim de encontrar-me numa próxima estação. Perguntarei: quem é você? E então poderei responder: eu sou eu mesma.
Ela olha as próprias mãos, só então percebendo como eram grosseiras e calosas. Mas ao menos tinham estória aquelas mãos, é o que pensa. Sente a terra tremer furiosa, por três vezes; e de novo aquele medo da porra percorre todo o seu corpo, explorando suas entranhas, zombando de suas dúvidas.
Pergunta-se, eu realmente preciso ir embora? Ah, merda - preciso, claro que preciso. Ouve os sinos tocarem novamente, lembrando-se que, agora, poderá ser quem quiser ser. Assim, de verdade! Suas comportadas máscaras de porcelana - convenientíssimas - ficarão aqui, para trás, e ela rir-se-á delas em referências futuras, quando a idade já lhe tiver levado a saúde e prateado seus cabelos.
Hoje até podia saber de muito pouco, saber de quase nada. Mas disto tinha certeza: ali, naquele porto, ao som azul daqueles sinos, haveria um marco magnificamente discreto, onde uma caligrafia improvisada diria, eterna:
"Foi a partir daqui que deixei meus ensaios e realmente passei a interpretar meu papel no mundo. Aqui jazem minhas idiotices, daqui brotam meus horizontes."
E canta: à beira de mim mesma, aguardo, tensa: será exatamente nesse mundo vasto que aprenderei a desfazer-me de mim, a fim de encontrar-me numa próxima estação. Perguntarei: quem é você? E então poderei responder: eu sou eu mesma.
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
O filho do som
Sentou-se sobre o silêncio da tarde, num dos braços do sofá que tinha no quarto e, ajeitando o violão no colo, se pôs a sentir. E sentiu: alisou a madeira lisa com a ponta dos dedos, dedilhou uma das cordas graves, pressionou a caixa contra as pernas, sentiu a força frágil da madeira. Lá fora, as cigarras berravam um trinado absoluto, natural. Era a época mais quente do ano, quando o calor se desprendia do ar, do chão e da vida, fazendo com que por pouco o mundo inteiro não derretesse.
Concentrou-se, ainda no sofá, lembrando do que já haviam lhe dito: que descendia de músicas, de estórias, de lendas. Sabia que em suas veias corria o sangue que pulsara ao redor de fogueiras ciganas, que gritara em rituais africanos de umbanda, que se emocionara em celebrações de casamento sioux, que se prostituíra em festivais pagãos. Tudo nele, tudo dele era antigo, ancestral e melódico; era o encontro de todas as vozes humanas, de todos os ruídos do tempo.
Concentrou-se, ainda no sofá, lembrando do que já haviam lhe dito: que descendia de músicas, de estórias, de lendas. Sabia que em suas veias corria o sangue que pulsara ao redor de fogueiras ciganas, que gritara em rituais africanos de umbanda, que se emocionara em celebrações de casamento sioux, que se prostituíra em festivais pagãos. Tudo nele, tudo dele era antigo, ancestral e melódico; era o encontro de todas as vozes humanas, de todos os ruídos do tempo.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
É isso?
A dor ainda aguça meus sentidos mais do que qualquer outra coisa. Meu raciocínio acelera, célere, lépido, quase cruel, e então minha fichas caem com o peso de chumbo. Converso com músicas, mas como elas só conversam entre elas, quietas e silenciosas, eu me sento e escuto.
É isso? Nosso amor se tornou uma pira funerária, com labaredas famintas e grossos rolos de fumaça que se esticam e se desenrolam, mas olhando a cena você constata: pôxa, como é bonito. Eu digo "bacon", você diz "salada"; eu digo "marginal", você diz "consagrado". Eu engulo, você experimenta.
É isso? Pra ser sincero, um dia desses, num desses encontros casuais, talvez eu diga
... minha amiga!
Prazer em vê-la!
Até mais!,
e essa possibilidade me cai como um soco frio no estômago.
... prazer em vê-la!,
e meu corpo se incendeia, fico pensando se meu rosto ficou vermelho.
até mais... ,
e desmorono por dentro, de alto a baixo, até não sobrar nada. Se sobra, pelo menos não faz mais barulho, não emite mais som, não respira nem reclama. Clinicamente, o diagnóstico é "temporariamente morto por dentro".
É isso? Nosso amor se tornou uma pira funerária, com labaredas famintas e grossos rolos de fumaça que se esticam e se desenrolam, mas olhando a cena você constata: pôxa, como é bonito. Eu digo "bacon", você diz "salada"; eu digo "marginal", você diz "consagrado". Eu engulo, você experimenta.
É isso? Pra ser sincero, um dia desses, num desses encontros casuais, talvez eu diga
... minha amiga!
Prazer em vê-la!
Até mais!,
e essa possibilidade me cai como um soco frio no estômago.
... prazer em vê-la!,
e meu corpo se incendeia, fico pensando se meu rosto ficou vermelho.
até mais... ,
e desmorono por dentro, de alto a baixo, até não sobrar nada. Se sobra, pelo menos não faz mais barulho, não emite mais som, não respira nem reclama. Clinicamente, o diagnóstico é "temporariamente morto por dentro".
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