Noite, sentados um de frente para o outro.
Seu olhar divido em duas claras e esverdeadas profundezas, abismos vertiginosos que davam vista a uma alma permanentemente excitada. Não me tolhi do direito de afundar cada vez mais na sua força, sua feminilidade genuína, enquanto alisava com as mãos a porção rubra do seu cabelo. Me coloquei mais perto dela e senti no meu rosto sua respiração em lufadas quentes, as bocas muito próximas e em perfeita estática. Mudou suas pernas de posição, seus braços se afastaram do colo, deixando as mãos sobre os joelhos.
Meu coração tropeçava, quicando e quase me causando dor: podia ouvi-lo? Em certos momentos, quando deitava sozinho na cama, eu jurava ser capaz de sentir meu coração reverberando no colchão, no estrado de madeira, pelas paredes do quarto e nos encanamentos por trás dos tijolos do mundo. Podia ela sentir também? Seria possível que risse de mim, desse meu terremoto íntimo? Meu coração é um titã encarcerado, uma besta alada entre as costelas - você escuta?
Entrecerraram-se os abismos, olhos fechados por um instante, um momento de espera. A própria noite à espera, assim como tudo mais: a grama e as plantas, a paisagem distante, o firmamento nublado, Júpiter, Saturno e Urano. Toda a criação silenciara, à exceção dos grilos. Meu Deus, quanta consciência disso tudo, quanta sobriedade. O rubor do meu rosto derreteria metais.
Pausa. Pausa inesgotável que precede o êxtase. A insinuação da dúvida, a insegurança das apostas, o vazio preenchido pelo abandono da certeza. A máxima sensibilidade.
Empurrei-me para frente, lançando-me de encontro ao destino fresco do seu beijo, dedos embrenhando-se entre as mechas recém-cortadas e descendo até o pescoço alvo, a nuca. Por muito tempo permaneci assim, explorando com curiosidade as idiossincrasias dos seus lábios, da sua saliva adocicada, procurando pela língua tímida e pelos cantos da boca, beijando também as bochechas, o queixo, as maçãs delicadas do rosto. Beijei inclusive os olhos, aquelas pálidas e profundas esmeraldas, me sentindo tal qual um Lúcifer que caía das torres da Cidade de Prata em direção a outra espécie ainda mais selvagem de paraíso - um anjo em queda ascendente, na momentânea inutilidade de todos os infernos.
sábado, 17 de setembro de 2011
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Entre o que foi e o que pode ser,
à deriva sobre minhas ou alheias certezas
(buscando intermitente um sei-lá-o-quê),
tem algo que não me sai da cabeça.
E é: estar em posse de uma memória que ensaia suas primeiras falhas me parece um dos superlativos da falta de consolo.
quarta-feira, 15 de junho de 2011
Sobre como jamais, jamais lavar louça

É do senso comum que, dentro da grande nação que é a cozinha, o ato de lavar a louça é bem mais do que um mero dever: é uma obrigação cívica, uma demonstração moral de cidadania e higiene. Das pequeninas e simpáticas colheres de café até as desafiadoras e aterrorizantes panelas encardidas com óleo de fritura, são muitos os artifícios que a pia – esse monstro tirânico que nada teme e nada poupa – possui para nos testar até os limites da nossa paciência e da pele de nossas mãos. Não existem leis depois de abrir a torneira: ou você lava tudo, ou morre tentando.
Porém, essa era de agonia doméstica finalmente chegou ao fim. Há entre nós um herói, alguém que ouviu os milhões de lamentos ensaboados ao redor do mundo e os sintetizou numa solução adstringente definitiva para nossas batalhas contra aquele arroz queimado que grudou no fundo da panela.
Sim, meus caros, há uma solução... ou quase.
Apresento-lhes o fantástico, o rebelde, o irrecusável GUIA SOBRE COMO JAMAIS, JAMAIS LAVAR LOUÇA NUMA REPÚBLICA, escrito e editado por ninguém menos do que Leandro Freitas, o jovem mineiro que alcançou fama mundial pela façanha de nunca, jamais haver lavado um copo sequer.
Em entrevista exclusiva ao Sabe... ?, Leandro nos conta que nem tudo eram flores em sua vida. Logo aos dezessete anos ele se viu obrigado a sair da casa dos pais e morar num alojamento estudantil em Rio Preto, cidade do interior paulista, para cursar a universidade. Mas foi na cozinha desse alojamento que nosso intrépido rapaz começou a desenvolver as primeiras técnicas que lhe trariam fama e fortuna. “Eu já tinha idéias sobre como não ter que lavar louça desde os meus treze anos”, esclarece, “mas foi só quando comecei a fazer faculdade que realmente pude botar tudo em prática”.
Pois bem, chega de lenga lenga. Sabe... ? trás até vocês, em primeira mão, alguns excertos desse verdadeiro balde de sabedoria que é o GUIA SOBRE COMO JAMAIS, JAMAIS LAVAR LOUÇA NUMA REPÚBLICA, que será lançado no próximo mês pela editora Katcho Books:
GUIA SOBRE COMO JAMAIS, JAMAIS LAVAR LOUÇA NUMA REPÚBLICA
(ou: 277 passos elementares para fazer que os outros lavem a louça por você)
Passo #1: não sujou, não lavou – não cabe a você lavar uma louça que não é sua.
Passo #2: se você disser que vai lavar louça, não precisa dizer quando você vai lavar a louça.
Passo #9: ao encher uma panela com água para amolecer a sujeira, você fica automaticamente dispensado da obrigação de lavar essa panela.
Passo #13: louça suja sobre o fogão é algo fora da sua jurisdição. Ignore-a.
Passo #14: louça suja sobre a mesa também é algo fora da sua jurisdição. Despreze-a.
Passo #22: após deixar louça suja sobre a pia, ausente-se de casa durante longos períodos (por exemplo, viaje). Quando voltar, pode apostar que sua louça estará limpinha e guardada.
Passo #43: se a louça é complicada demais para ser lavada (grelhas de churrasco, jarras exóticas, taças de cristal, etc.), então não lave.
Passo #44: se a louça está suja demais (panelas com óleo de batata frita, frigideiras emporcalhadas, etc.), então também não lave.
Passo #97: “no dos outros é refresco”, de fato – e é exatamente por isso que não é você quem deve lavar a jarra.
Passo #102: tirou os pratos e talheres sujos de cima da mesa? Parabéns: você está imediatamente dispensado de ter que lavá-los.
Passo #155: se foi você quem providenciou o jantar, então não é você que vai limpar a sujeira.
[Adendo ao passo #155: se foi você quem trouxe a coca-cola para o jantar, aplique as regras do passo #155.]
Passo #156: mesmo que outra pessoa tenha providenciado o jantar, não há nenhuma lei que te obrigue a lavar a louça depois (em caso de contradição com o Passo #155, consulte o Passo #97).
Gostou da prévia? Então garanta já o seu!
sexta-feira, 3 de junho de 2011
Saia de malha
Coxas brancas, lisas e cobertas por uma saia de malha também branca, esbarram nas costas da minha mão a cada vez que tento trocar a marcha do carro.
A meia luz dos postes que passam e a penumbra fosforescente da noite se refletem na boca que se abre num sorriso, que não sei bem se é sorriso mas, seja lá o que for, estou certo de que não é meu e sim seu. Procuro entender qual é a situação e quais seriam suas implicações, se talvez a imagem de você sorrindo pra mim não seria uma ilusão criada pelos caprichos de uma mente estimulada com álcool e com suor de gente, até o momento em que uma muito grande e muito escura sombra de árvore encobre o carro (parece que resolvi estacionar numa região erma), e giro para trás a chave na ignição: o motor do carro silencia, desligado.
Silêncio. Se estivesse sóbrio, sentiria meu coração tentando explodir.
Minha mão direita solta meu cinto de segurança e posso perceber, apesar da escuridão, que você também solta o seu cinto. Te trago pra perto de mim - uma mão na nuca, a outra num dos seus seios - e quando nos beijamos meus lábios me transmitem a mensagem de que sim, você estava sorrindo o tempo todo, inclusive agora mesmo, orgulhosa da fascinação que seu corpo me causa. Desajeitadamente você tenta desafivelar meu cinto; auxilio o processo abrindo o botão e o zíper da calça; ergo minha camisa até o peito e, buscando uma das suas mãos, te guio até um ponto onde você não possa ter dúvidas quanto ao meu desejo; você me aperta, me acaricia, e me aproveito da sua excitação para tatear suas pernas, brancas no escuro, lisas por baixo da saia; toco suas curvas e suas convexidades de um modo feroz, pulsante e todavia delicado; você sai do seu assento e se vira sobre mim, pernas abertas, sentando-se de frente no meu colo; o câmbio da marcha do carro atrapalha mas não impede nosso encaixe, que é apressado, um pouco doloroso, mas molhado e perfeito; as demais partes dos nossos corpos procuram um meio de devorarem umas às outras, mão, lábios, língua, respiração; seu perfume e sua umidade se desprendem com mais força quando você aumenta a freqüência dos seus movimentos, e eu inalo tudo isso - o odor doce, a fúria, a sofreguidão.
A meia luz dos postes que passam e a penumbra fosforescente da noite se refletem na boca que se abre num sorriso, que não sei bem se é sorriso mas, seja lá o que for, estou certo de que não é meu e sim seu. Procuro entender qual é a situação e quais seriam suas implicações, se talvez a imagem de você sorrindo pra mim não seria uma ilusão criada pelos caprichos de uma mente estimulada com álcool e com suor de gente, até o momento em que uma muito grande e muito escura sombra de árvore encobre o carro (parece que resolvi estacionar numa região erma), e giro para trás a chave na ignição: o motor do carro silencia, desligado.
Silêncio. Se estivesse sóbrio, sentiria meu coração tentando explodir.
Minha mão direita solta meu cinto de segurança e posso perceber, apesar da escuridão, que você também solta o seu cinto. Te trago pra perto de mim - uma mão na nuca, a outra num dos seus seios - e quando nos beijamos meus lábios me transmitem a mensagem de que sim, você estava sorrindo o tempo todo, inclusive agora mesmo, orgulhosa da fascinação que seu corpo me causa. Desajeitadamente você tenta desafivelar meu cinto; auxilio o processo abrindo o botão e o zíper da calça; ergo minha camisa até o peito e, buscando uma das suas mãos, te guio até um ponto onde você não possa ter dúvidas quanto ao meu desejo; você me aperta, me acaricia, e me aproveito da sua excitação para tatear suas pernas, brancas no escuro, lisas por baixo da saia; toco suas curvas e suas convexidades de um modo feroz, pulsante e todavia delicado; você sai do seu assento e se vira sobre mim, pernas abertas, sentando-se de frente no meu colo; o câmbio da marcha do carro atrapalha mas não impede nosso encaixe, que é apressado, um pouco doloroso, mas molhado e perfeito; as demais partes dos nossos corpos procuram um meio de devorarem umas às outras, mão, lábios, língua, respiração; seu perfume e sua umidade se desprendem com mais força quando você aumenta a freqüência dos seus movimentos, e eu inalo tudo isso - o odor doce, a fúria, a sofreguidão.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
Pelo reencontro
De toda a série de agonias mortais a que somos expostos antes do coração parar de bater no peito, certamente a mais cruel é a inevitabilidade do reencontro. Pois, se há alguma verdade nesse mundo, é essa: a de que todos estamos fadados a nos reencontrar, tenha sido a última despedida feita de maneira indiferente, insultante ou civilizada. Todos iremos nos rever e, no momento dramático em que avistamos (e somos avistados pel)a outra metade que compõe o reencontro, perderemos tanto o fôlego quanto a paz estomacal - isso pra não mencionar o pesadelo do suor nas mãos.
Ainda na linha da agonia, feliz fui eu, masoquista que sou, por ter aproveitado cada centímetro de constrangimento quando te abracei novamente e percebi que, talvez com a atitude adequada, poderia ter uma vez mais a morenice plena do seu corpo se contorcendo na obscuridade perfumada e mal-afamada da minha cama.
E eu sabia que teria. Não importava que tivesse de cancelar todas as opções libertinas planejadas para mais tarde. Por hoje, meu triunfo seria te ter inteiramente. Te ter novamente.
Então adeus à agonia, adeus àquele namoro pueril em que por vezes fui obrigado a frustrar minha primitividade e solucionar os dramas morais que você tinha com o seu próprio corpo. Nessa noite sem rodeios, compassada pela arte do que aprendemos durantes esses quatro anos em que a razão nos manteve separados, seríamos dominados - ou melhor, seríamos executados - pelo regime ditatorial da nossa recém-adquirida fome de gente.
Horas depois, quando na manhã implacável que nos persegue desde o outro lado do mundo, acordaríamos ao lado de um estranho: eu pra você e você pra mim. Nos despediríamos civilizadamente, afinal, pra que criar caso? Pra que ter um caso? Agora somos solteiros profissionais que sabem separar as coisas muito bem e que entendem dessa tal de diplomacia pós-flashback.
Se é assim que manda o protocolo, então tá. Tchau.
PS: seria a agonia opcional? Ora, é claro que não. Só é opcional o prazer que buscar aliviar a agonia mútua desse destino nefasto que rege o reecontro. O resto é conversa fiada.
Ainda na linha da agonia, feliz fui eu, masoquista que sou, por ter aproveitado cada centímetro de constrangimento quando te abracei novamente e percebi que, talvez com a atitude adequada, poderia ter uma vez mais a morenice plena do seu corpo se contorcendo na obscuridade perfumada e mal-afamada da minha cama.
E eu sabia que teria. Não importava que tivesse de cancelar todas as opções libertinas planejadas para mais tarde. Por hoje, meu triunfo seria te ter inteiramente. Te ter novamente.
Então adeus à agonia, adeus àquele namoro pueril em que por vezes fui obrigado a frustrar minha primitividade e solucionar os dramas morais que você tinha com o seu próprio corpo. Nessa noite sem rodeios, compassada pela arte do que aprendemos durantes esses quatro anos em que a razão nos manteve separados, seríamos dominados - ou melhor, seríamos executados - pelo regime ditatorial da nossa recém-adquirida fome de gente.
Horas depois, quando na manhã implacável que nos persegue desde o outro lado do mundo, acordaríamos ao lado de um estranho: eu pra você e você pra mim. Nos despediríamos civilizadamente, afinal, pra que criar caso? Pra que ter um caso? Agora somos solteiros profissionais que sabem separar as coisas muito bem e que entendem dessa tal de diplomacia pós-flashback.
Se é assim que manda o protocolo, então tá. Tchau.
PS: seria a agonia opcional? Ora, é claro que não. Só é opcional o prazer que buscar aliviar a agonia mútua desse destino nefasto que rege o reecontro. O resto é conversa fiada.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Banguela Arlequim
O Arlequim sobe as ruas de subidas acentuadas,
ajeita a gola de um algodão descolorido,
ressona o guizo que balança do chocalho
e na graça de Colombina improvis’um sorriso.
O Arlequim corre a rua de ladeiras acetinadas,
torce os ligamentos do tendão enfraquecido,
espatifa a cara entre as pedras do cascalho,
maquiando o mundo com um rubro indeciso.
ajeita a gola de um algodão descolorido,
ressona o guizo que balança do chocalho
e na graça de Colombina improvis’um sorriso.
O Arlequim corre a rua de ladeiras acetinadas,
torce os ligamentos do tendão enfraquecido,
espatifa a cara entre as pedras do cascalho,
maquiando o mundo com um rubro indeciso.
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