sexta-feira, 25 de julho de 2014

Orquestra de milagres

Acordar de forma destemida e então operar uma osquestra de milagres, hoje o dia certamente será diferen... ah, mas que sono fodido.

Meu ânimo se esvai em corte profundos e supurados de um tédio por tudo imposto (o tédio é o imposto da vitória, ressaca da conquista). Lembro-me da energia, contudo; lembro-me de um estado de espírito despido de por quês, desnudando amplas extensões daquilo que não era: aquilo que viria a ser.

Minto, porém: é precisamente essa alma letárgica meu porto, minha casa de plácida mobília indistinta, abandonada a definhar mais lentamente que os estudiosos de seu definhamento. Sempre velha, sempre antiga e tão igual.

Noto o mundo com um olhar semicerrado de exaltada exaustão. Me canso em mim e, miserável de apoios, me deito e aguardo pelo segundo cansaço, cansaço conformado, desistente.

Durmo. Me lanço com sofreguidão ao sono... para acordar de forma destemida e então operar uma orquestra de milagres. Amanhã o dia certamente será diferente.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Yellow

Na prática, é muito difícil não ser hipócrita.

Toda percepção é sujeita ao julgamento, ao corte que nossa consciência faz dos fatos e das coisas. Tudo é visto através de uma lente, como se de todo o cenário somente algumas cores fossem realmente visíveis; vemos aquilo que somos, isso somente, limitado assim. Difícil dizer se há uma impressão genuína, despida de preconceitos e de pré-conceitos.

Ah, mas não no sexo. Sem roupa eu sou capaz de ver quem você realmente é, indo muito além da metáfora. Sem roupa eu posso te tocar e sentir e provar da matéria que te compõe, do que você é feita de verdade. O prazer remove meu julgamento, e também os cortes. A cama é um santuário de imparcialidade, neutra, elísia, dona da liberdade de podermos ser o que de fato somos.

Problema é que é muito difícil não ser hipócrita. É quase impossível dizer, de cara limpa, que minha decisão de dormir contigo foi só pra te conhecer melhor, pra te ver por inteiro, sem lentes, sem óculos e sem nada - é impossível convencer alguém disso, principalmente quando não é verdade, não inteiramente. A verdade, a patética e leviana verdade, é essa: te fiz minha pra saber a cor da sua alma, pra descobrir como você devia parecer aos olhos de Deus, e me apaixonei na porra do processo. Já dizia Anthony Kiedis:


This is the way I wanted it to be with you
This is the way that I knew that it would be with you
Way upon the mountain where she died,
All I ever wanted was your life...


Até o dia em que você puder me perdoar, parece que esse será o meu pedido de adeus.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Busunismos¹: sobre a raposa e as vovós

É inútil negar o meu sucesso com as vovós. Sim, é inútil.

Avós costumam gostar de mim. Inconscientemente elas percebem que, no fundo, pouco além dessa superfície envernizada e polida do rapaz de bons modos, reside um calhorda incorrigível, um Casablanca pós-moderno adaptado ao uso das redes sociais e da camisinha. É esse o estereótipo masculino ao qual elas se acorrentaram no passado, quando da primavera de suas juventudes, e ao qual elas ainda têm uma espécie latente de devoção apaixonada.

Arrogante, mas verdadeiro: eu fascino as velhinhas. E é através de suas netas que elas canalizam o fluxo desse desejo antigo e sempre incompleto de servirem a um mal maior, uma inteligência sensual e absolutamente sem princípios quando seus objetivos usam saias ou sandálias de salto alto. Quando me olham nos olhos, fazendo força para enxergar através dos óculos grossos de aros amarelecidos pelo passar de muitos anos, o que vêem é uma resposta acastanhada infalivelmente clara: seu mais novo neto – sou sempre bem-vindo na família – é um animal traiçoeiro que sabe cativar como ninguém; e recebo amor à primeira vista.

Na forma como eu entendo os fatos, Saint-Exupéry teria escrito uma estória sobre uma raposa alaranjada que, certo dia, cativara uma Pequena Princesa, descedente de uma longa linhagem de astros, e que, após certa noite, fugira florestra adentro até o vilarejo mais distante, carregando na boca um coração gotejante, ainda quente, enquanto a neta da realeza jazia sobre um catre qualquer com um vazio sanguinolento no lugar do peito. Dois dias depois, quando o dono da hospedaria encontrou o corpo da garota, a notícia rapidamente se espalhou pelo pequeno povoado. A avó da menina, quando foi avisada sobre o acontecido, só fazia suspirar. E maldizia: eu daria tudo para estar no lugar da minha neta – tudo...



1: o termo se refere ao tipo de pensamento solto e insensato que geralmente se desprende em ônibus, busões, busús, carros, carretas, passeios de bicicletas, aviões lotados, caminhadas ou longas faxinas domésticas.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Fora de si,

não por raiva, mas por outro tipo de descontrole. Há uma locomotiva infinita, vagão conectado a vagão, seguindo em frente, sempre em frente. Posso ver um vagão em particular passando, o meu vagão, o espaço que ocupo no mundo. E observo: está vazio.

Parece que desci na estação pra fazer alguma coisa (ir ao banheiro, comprar um chocolate na loja ao lado, respirar um pouco de ar puro) e, de uma hora para outra, me encontrei estagnado, estacionado, vendo o trem já em movimento, arrastando minha vida para longe de mim e do meu controle. Os vagões que passam ruidosamente ao meu lado não são meus, são dos outros...

Correr pra quê, ficar pra quê: ando por aí sem pressa, ouvindo o apito do trem se perdendo na distância, alheio à nítida certeza de que estou cometendo uma cagada monumental. Há pessoas que passam por perto, e eu sorrio e aceno pra quem se importa - minha encenação de "que nada, tá tudo bem" desconhece limites.

Estou por fora de tudo, inclusive de mim.

sábado, 17 de setembro de 2011

A queda ascendente

Noite, sentados um de frente para o outro.

Seu olhar divido em duas claras e esverdeadas profundezas, abismos vertiginosos que davam vista a uma alma permanentemente excitada. Não me tolhi do direito de afundar cada vez mais na sua força, sua feminilidade genuína, enquanto alisava com as mãos a porção rubra do seu cabelo. Me coloquei mais perto dela e senti no meu rosto sua respiração em lufadas quentes, as bocas muito próximas e em perfeita estática. Mudou suas pernas de posição, seus braços se afastaram do colo, deixando as mãos sobre os joelhos.

Meu coração tropeçava, quicando e quase me causando dor: podia ouvi-lo? Em certos momentos, quando deitava sozinho na cama, eu jurava ser capaz de sentir meu coração reverberando no colchão, no estrado de madeira, pelas paredes do quarto e nos encanamentos por trás dos tijolos do mundo. Podia ela sentir também? Seria possível que risse de mim, desse meu terremoto íntimo? Meu coração é um titã encarcerado, uma besta alada entre as costelas - você escuta?

Entrecerraram-se os abismos, olhos fechados por um instante, um momento de espera. A própria noite à espera, assim como tudo mais: a grama e as plantas, a paisagem distante, o firmamento nublado, Júpiter, Saturno e Urano. Toda a criação silenciara, à exceção dos grilos. Meu Deus, quanta consciência disso tudo, quanta sobriedade. O rubor do meu rosto derreteria metais.

Pausa. Pausa inesgotável que precede o êxtase. A insinuação da dúvida, a insegurança das apostas, o vazio preenchido pelo abandono da certeza. A máxima sensibilidade.

Empurrei-me para frente, lançando-me de encontro ao destino fresco do seu beijo, dedos embrenhando-se entre as mechas recém-cortadas e descendo até o pescoço alvo, a nuca. Por muito tempo permaneci assim, explorando com curiosidade as idiossincrasias dos seus lábios, da sua saliva adocicada, procurando pela língua tímida e pelos cantos da boca, beijando também as bochechas, o queixo, as maçãs delicadas do rosto. Beijei inclusive os olhos, aquelas pálidas e profundas esmeraldas, me sentindo tal qual um Lúcifer que caía das torres da Cidade de Prata em direção a outra espécie ainda mais selvagem de paraíso - um anjo em queda ascendente, na momentânea inutilidade de todos os infernos.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Entre o que foi e o que pode ser,

à deriva sobre minhas ou alheias certezas
(buscando intermitente um sei-lá-o-quê),
tem algo que não me sai da cabeça.

E é: estar em posse de uma memória que ensaia suas primeiras falhas me parece um dos superlativos da falta de consolo.