Conta-se que há muitos e muitos anos, nos tempos da antiga Grécia, vivia um homem que era dono de uma habilidade peculiarmente notável. Chamava-se Oblívio, Oblívio de Creta, e por uma inexplicável coincidência instalara sua moradia na própria Ilha de Creta.
Uma parte de Oblívio era humana. As outras partes também. Isso por si só já era notável, visto que uma quantidade expressiva da população grega era metade humana, metade bicho (cavalo, bode, peixe, touro, árvore... ou coisa pior). A zoofilia divina - literalmente - comia solta, e ser um ser humano completamente comum não era lá uma coisa tão comum. Oblívio era, portanto, anormalmente humano.
Mas mais do que anormalmente humano, aquele pacato habitante de Creta era, como já dissemos, dono de uma habilidade estranhamente notável. Era isto: Oblívio podia esquecer.
E ele esquecia.
Esquecia qual era o sabor do alecrim, mastigado nas primeiras horas da manhã. Esquecia o cheiro dos narcisos desabrochando em seu jardim, nas tardes de primavera. Esquecia a melodia hipnótica que fluía das flautas dos sátiros, nos bosques, durante as noites de comemorações carnais.
O lado bom era que Oblívio esquecia que tinha dívidas, problemas, vizinhos chatos... essas coisas. A coisa chegava a tal ponto que ele, certa vez, decidira espontaneamente que passaria a viver sem respirar, bastando para isso esquecer que a privação prolongada de ar levava a uma morte óbvia.
Uma vez, um viajante do sul que se encontrava de passagem por Creta bateu à porta de Oblívio. Ouvira falar de seu incrível dom para o esquecimento e, desde então, o julgava como sendo o mais feliz dos homens. Diante dos olhos arregalados de Oblívio, explicou-se:
- O senhor é realmente sortudo – disse ele. - Entenda: você pode simplesmente viver o que quiser e, então, puuf!, escolher o que esquecer. Decepções, tristezas... da vida, você poderia sempre abandonar o que houvesse de pior. – E acrescentou: - Você é imune à dor.
Tendo dito isto, foi-se embora o viajante em direção ao sul. E no dia seguinte, Oblívio esqueceu a conversa.
O tempo passou. E Oblívio continuou a esquecer.
Tanto esqueceu até que, no fim de uma tarde morna de verão – tarde essa que, nos calendários de hoje, seria uma tarde de domingo -, Oblívio esquecera como era essa coisa de ter que existir. Entendam: ele se esqueceu.
E foi dessa forma que cessou a existência de Oblívio, o habitante de Creta que era metade homem, metade homem. O grego cujo único vestígio é uma estória sobre esquecer.
sábado, 21 de novembro de 2009
terça-feira, 20 de outubro de 2009
A ímpar cissiparidade de Cissa
(Nota: Demorou, mas saiu. E vale dizer - não sem certa vaidade - que o texto conta com a aprovação da dona do nome e do sobrenome mais fantásticos de que tenho conhecimento.
Bom, aí vai.)
Sem mais nem menos, numa dessas manhãs opressivas das terças-feiras, Bruno resolvera colecionar selos. Gabriela, por sua vez, optara pela coleção de livros (daqueles que não tivessem figuras). Mas não na mesma manhã, é claro. Isso foi numa tarde de sábado, das melancólicas.
"Colecionar livros é bem mais razoável do que colecionar selos", era o que Gabriela pensava. Ainda que não conhecesse Bruno, é claro.
Mas bem, esta infelizmente não é uma estória sobre Gabriela. E, muito embora Bruno tenha sido mencionado logo de início, temo em dizer que esta estória também não é sobre ele.
Esta é uma estória sobre Cissa, e sobre seu gosto por demais peculiar para coleções.
Cissa colecionava pessoas que não faziam mais parte de sua vida. E era só isso.
Pessoas que tinham partido ou se mudado, fosse por morte ou por trabalho; pessoas que tinham ido estudar fora, e que não voltaram até agora; pessoas que tinham um jeito legal, e outras um tanto sem sal; pessoas que tinham apelidos, que tinham nome, que tinham vidas inteiras.
Todas, todas elas, em uníssona totalidade, haviam de algum modo (inevitável?) deixado de participar das partiduras musicais de Cissa. Uma a uma, e às vezes em grupos inteiros, desprendiam-se como notas finas e desafinadas, perdidas nos ecos ensurdecedores do mundo. Passavam, então, a fazer parte somente de sua ímpar e lúgubre coleção. E é por muitas e muitas vezes - pra não dizer sempre - que Cissa caminha lentamente por entre os artigos em seus mostruários, revivendo cada pessoa, cada cheiro, cada chá e cada choro.
Somente Cissa sabe como Cissa se sente diante de tantas e tantas cissiparidades de si. Há um pouco de Cissa em cada uma dessas pessoas, mas sempre haverá uma porção significativamente maior dessas pessoas em Cissa. Sua coleção, à sua maneira, define quem ela realmente é na mesma medida em que a palha faz o espantalho: é o seu recheio, seu real conteúdo por trás de tudo.
Longe dali, entretanto, Bruno e Gabriela prosseguiam normalmente com suas vidas, cada um com sua própria coleção.
Ainda que não se conhecessem, é claro.
Bom, aí vai.)
Sem mais nem menos, numa dessas manhãs opressivas das terças-feiras, Bruno resolvera colecionar selos. Gabriela, por sua vez, optara pela coleção de livros (daqueles que não tivessem figuras). Mas não na mesma manhã, é claro. Isso foi numa tarde de sábado, das melancólicas.
"Colecionar livros é bem mais razoável do que colecionar selos", era o que Gabriela pensava. Ainda que não conhecesse Bruno, é claro.
Mas bem, esta infelizmente não é uma estória sobre Gabriela. E, muito embora Bruno tenha sido mencionado logo de início, temo em dizer que esta estória também não é sobre ele.
Esta é uma estória sobre Cissa, e sobre seu gosto por demais peculiar para coleções.
Cissa colecionava pessoas que não faziam mais parte de sua vida. E era só isso.
Pessoas que tinham partido ou se mudado, fosse por morte ou por trabalho; pessoas que tinham ido estudar fora, e que não voltaram até agora; pessoas que tinham um jeito legal, e outras um tanto sem sal; pessoas que tinham apelidos, que tinham nome, que tinham vidas inteiras.
Todas, todas elas, em uníssona totalidade, haviam de algum modo (inevitável?) deixado de participar das partiduras musicais de Cissa. Uma a uma, e às vezes em grupos inteiros, desprendiam-se como notas finas e desafinadas, perdidas nos ecos ensurdecedores do mundo. Passavam, então, a fazer parte somente de sua ímpar e lúgubre coleção. E é por muitas e muitas vezes - pra não dizer sempre - que Cissa caminha lentamente por entre os artigos em seus mostruários, revivendo cada pessoa, cada cheiro, cada chá e cada choro.
Somente Cissa sabe como Cissa se sente diante de tantas e tantas cissiparidades de si. Há um pouco de Cissa em cada uma dessas pessoas, mas sempre haverá uma porção significativamente maior dessas pessoas em Cissa. Sua coleção, à sua maneira, define quem ela realmente é na mesma medida em que a palha faz o espantalho: é o seu recheio, seu real conteúdo por trás de tudo.
Longe dali, entretanto, Bruno e Gabriela prosseguiam normalmente com suas vidas, cada um com sua própria coleção.
Ainda que não se conhecessem, é claro.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Prometeu
- O que me liga a você é o desejo pela traição. - dissera sem pensar, como nas vezes em que a palavra antecede o raciocínio da censura. Era a voz da verdade, do óbvio, e portanto seu peso era condizente.
Podemos dizer que Thomas era um eterno devedor. Cada novo empréstimo de vontade a que se permitia não era senão mais uma dívida, mais um elo a ser somado aos extensos grilhões que o acorrentavam a si mesmo. Assim como Prometeu no monte Cáucaso, Thomas diarimente sentia o valor de seu afeto ser mutilado por simbólicos abutres antropofágicos (e não é simbólica toda antropofagia?). Porém, diferentemente do titã da mitologia, o valor de seu afeto não detinha a capacidade de regenerar-se com o nascer de um novo dia; ele fenecia lenta e dolorosamente, como uma pessoa que, enferma, é informada da data de sua própria morte.
Podemos dizer que Thomas era um eterno devedor. Cada novo empréstimo de vontade a que se permitia não era senão mais uma dívida, mais um elo a ser somado aos extensos grilhões que o acorrentavam a si mesmo. Assim como Prometeu no monte Cáucaso, Thomas diarimente sentia o valor de seu afeto ser mutilado por simbólicos abutres antropofágicos (e não é simbólica toda antropofagia?). Porém, diferentemente do titã da mitologia, o valor de seu afeto não detinha a capacidade de regenerar-se com o nascer de um novo dia; ele fenecia lenta e dolorosamente, como uma pessoa que, enferma, é informada da data de sua própria morte.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Tato...
Estico o braço pela janela do carro, para fora, sentindo o frio do vento e abrindo a mão (num aceno desajeitado) para a chuva que passa. Me pego torcendo por algo, e por isso mesmo passo a torcer ainda mais: torço para que uma, pelo menos uma gota d'água atinja dolorasamente minha pele e eu então acorde para as coisas pelas quais realmente se vale a pena acordar.
segunda-feira, 29 de junho de 2009
A Jihad das magrelas
Quando o assunto é a infindável criação de deus, uma das primeiras lições que os seres humanos aprendem é que, inegavelmente, algumas coisas são como são. Mas somente algumas coisas, é claro.
Nem tudo é como deveria ser, e isso se torna bem claro quando, por exemplo, você é obrigado a percorrer longos trajetos sobre uma bicicleta. Uma coisa é andar a pé. "Andar com as próprias pernas", como se costuma dizer. Pode até parecer primitivo ou pouco eficaz, mas é acima de tudo um meio de locomoção seguro e universal. Mesmo as aves ou os peixes (ou ainda as minhocas), que não são bichos exatamente bípedes, são capazes de andar - à sua própria maneira, de fato, mas ainda assim podemos dizer que "andam" valendo-se de suas capacidades físicas.
Bom, se valer das próprias capacidades físicas não é o que uma pessoa faz quando anda de bicicleta, não unicamente. É necessário se valer também das capacidades físicas da bicicleta em si, e do asfalto, e dos buracos, e - para o total desespero - dos carros.
A relação entre carros e bicicletas é predatória. Sempre foi assim, desde o tempo das cavernas, e existem inclusive pinturas rupestres que evidenciam essa teoria: a de que logo pela manhã, quando os homo habilis saíam de suas cavernas para trabalhar, alguns enfrentavam o trânsito matinal utilizando seus carros, enquanto que outros, menos afortunados financeiramente, percorriam os mesmos trajetos munidos somente de bicicletas. Também nestas pinturas são retratadas batalhas terríveis, batalhas sobre como os carros acossavam as bicicletas com seus grandes corpos motorizados, e de como as bicicletas, indefesas e vingativas, fugiam para a calçada dos pedestres e arrancavam, sem um pingo de culpa, os retrovisores de carros estacionados.
Evolutivamente falando, andar de bicicleta não é algo que é como deveria ser. Deveria haver um mundo específico para os ciclistas. Um mundo plano e sem subidas, talvez, ou repleto de agradáveis e revigorantes descidas, mas nunca habitado por veículos movidos à combustão. Já um mundo onde carros e bicicletas são obrigados a coexistir (ou, na melhor das hipóteses, existir afim de se destruírem mutuamente) é, e sempre será, um mundo intrinsecamente errado e paranóico.
Mas há espaço para otimismo, como afirmam certos especialistas *. Pelo menos uma coisa mudou no trágico ecossistema das ruas: hoje, diferentemente do tempo das cavernas, existe um lugar onde a opressão cessa e as bicicletas podem, enfim, gozar do livre direito de ir e vir. Estamos falando da ciclovia, é claro, que vem se mostrando tremendamente eficaz: sobre ela, as bicicletas tornam-se presas ainda mais fáceis para a ferocidade sanguinária dos carros.
Afirmo, pois: se um ciclista pudesse expressar toda a experiência, sabedoria e terror adquiridos ao longo de toda uma vida de suplícios sobre duas rodas, com certeza diria: "por caridade, respeitem a ciclovia".
(*): tais especialistas, obviamente, andam de carro.
Nem tudo é como deveria ser, e isso se torna bem claro quando, por exemplo, você é obrigado a percorrer longos trajetos sobre uma bicicleta. Uma coisa é andar a pé. "Andar com as próprias pernas", como se costuma dizer. Pode até parecer primitivo ou pouco eficaz, mas é acima de tudo um meio de locomoção seguro e universal. Mesmo as aves ou os peixes (ou ainda as minhocas), que não são bichos exatamente bípedes, são capazes de andar - à sua própria maneira, de fato, mas ainda assim podemos dizer que "andam" valendo-se de suas capacidades físicas.
Bom, se valer das próprias capacidades físicas não é o que uma pessoa faz quando anda de bicicleta, não unicamente. É necessário se valer também das capacidades físicas da bicicleta em si, e do asfalto, e dos buracos, e - para o total desespero - dos carros.
A relação entre carros e bicicletas é predatória. Sempre foi assim, desde o tempo das cavernas, e existem inclusive pinturas rupestres que evidenciam essa teoria: a de que logo pela manhã, quando os homo habilis saíam de suas cavernas para trabalhar, alguns enfrentavam o trânsito matinal utilizando seus carros, enquanto que outros, menos afortunados financeiramente, percorriam os mesmos trajetos munidos somente de bicicletas. Também nestas pinturas são retratadas batalhas terríveis, batalhas sobre como os carros acossavam as bicicletas com seus grandes corpos motorizados, e de como as bicicletas, indefesas e vingativas, fugiam para a calçada dos pedestres e arrancavam, sem um pingo de culpa, os retrovisores de carros estacionados.
Evolutivamente falando, andar de bicicleta não é algo que é como deveria ser. Deveria haver um mundo específico para os ciclistas. Um mundo plano e sem subidas, talvez, ou repleto de agradáveis e revigorantes descidas, mas nunca habitado por veículos movidos à combustão. Já um mundo onde carros e bicicletas são obrigados a coexistir (ou, na melhor das hipóteses, existir afim de se destruírem mutuamente) é, e sempre será, um mundo intrinsecamente errado e paranóico.
Mas há espaço para otimismo, como afirmam certos especialistas *. Pelo menos uma coisa mudou no trágico ecossistema das ruas: hoje, diferentemente do tempo das cavernas, existe um lugar onde a opressão cessa e as bicicletas podem, enfim, gozar do livre direito de ir e vir. Estamos falando da ciclovia, é claro, que vem se mostrando tremendamente eficaz: sobre ela, as bicicletas tornam-se presas ainda mais fáceis para a ferocidade sanguinária dos carros.
Afirmo, pois: se um ciclista pudesse expressar toda a experiência, sabedoria e terror adquiridos ao longo de toda uma vida de suplícios sobre duas rodas, com certeza diria: "por caridade, respeitem a ciclovia".
(*): tais especialistas, obviamente, andam de carro.
terça-feira, 26 de maio de 2009
Porque seu amor era, sem gênero,
o bom humor com tudo o que vinha dentro: cócegas, piadas, comentários irônicos ou bonitos, e sorrisos (sorrisos...).
A sensibilidade, o jeito de demonstrar as coisas que lhe emocionavam, o jeito de lidar com a vida.
A forma que cria na felicidade, a forma que lidava com as famílias e com os amigos. A responsabilidade, a inteligência.
A desenvoltura, o cuidado com as pessoas. O jeito de conversar, bem como as próprias conversas.
A dança, a música que era pra mim.
O jeito que me punha sem graça, o jeito que me abraçava e que me beijava...
Os cuidados, o carinho que tinha comigo.
O fenômeno que não se limitava apenas à minha cabeça, mas que era holístico, global.
O fato de não morrer, caso ficasse sem, mas de me fazer um ser humano imensamente mais feliz, mais completo quando existia em minha vida.
E a luz que irradiava, desde sempre.
A sensibilidade, o jeito de demonstrar as coisas que lhe emocionavam, o jeito de lidar com a vida.
A forma que cria na felicidade, a forma que lidava com as famílias e com os amigos. A responsabilidade, a inteligência.
A desenvoltura, o cuidado com as pessoas. O jeito de conversar, bem como as próprias conversas.
A dança, a música que era pra mim.
O jeito que me punha sem graça, o jeito que me abraçava e que me beijava...
Os cuidados, o carinho que tinha comigo.
O fenômeno que não se limitava apenas à minha cabeça, mas que era holístico, global.
O fato de não morrer, caso ficasse sem, mas de me fazer um ser humano imensamente mais feliz, mais completo quando existia em minha vida.
E a luz que irradiava, desde sempre.
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