De toda a série de agonias mortais a que somos expostos antes do coração parar de bater no peito, certamente a mais cruel é a inevitabilidade do reencontro. Pois, se há alguma verdade nesse mundo, é essa: a de que todos estamos fadados a nos reencontrar, tenha sido a última despedida feita de maneira indiferente, insultante ou civilizada. Todos iremos nos rever e, no momento dramático em que avistamos (e somos avistados pel)a outra metade que compõe o reencontro, perderemos tanto o fôlego quanto a paz estomacal - isso pra não mencionar o pesadelo do suor nas mãos.
Ainda na linha da agonia, feliz fui eu, masoquista que sou, por ter aproveitado cada centímetro de constrangimento quando te abracei novamente e percebi que, talvez com a atitude adequada, poderia ter uma vez mais a morenice plena do seu corpo se contorcendo na obscuridade perfumada e mal-afamada da minha cama.
E eu sabia que teria. Não importava que tivesse de cancelar todas as opções libertinas planejadas para mais tarde. Por hoje, meu triunfo seria te ter inteiramente. Te ter novamente.
Então adeus à agonia, adeus àquele namoro pueril em que por vezes fui obrigado a frustrar minha primitividade e solucionar os dramas morais que você tinha com o seu próprio corpo. Nessa noite sem rodeios, compassada pela arte do que aprendemos durantes esses quatro anos em que a razão nos manteve separados, seríamos dominados - ou melhor, seríamos executados - pelo regime ditatorial da nossa recém-adquirida fome de gente.
Horas depois, quando na manhã implacável que nos persegue desde o outro lado do mundo, acordaríamos ao lado de um estranho: eu pra você e você pra mim. Nos despediríamos civilizadamente, afinal, pra que criar caso? Pra que ter um caso? Agora somos solteiros profissionais que sabem separar as coisas muito bem e que entendem dessa tal de diplomacia pós-flashback.
Se é assim que manda o protocolo, então tá. Tchau.
PS: seria a agonia opcional? Ora, é claro que não. Só é opcional o prazer que buscar aliviar a agonia mútua desse destino nefasto que rege o reecontro. O resto é conversa fiada.
quinta-feira, 26 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Banguela Arlequim
O Arlequim sobe as ruas de subidas acentuadas,
ajeita a gola de um algodão descolorido,
ressona o guizo que balança do chocalho
e na graça de Colombina improvis’um sorriso.
O Arlequim corre a rua de ladeiras acetinadas,
torce os ligamentos do tendão enfraquecido,
espatifa a cara entre as pedras do cascalho,
maquiando o mundo com um rubro indeciso.
ajeita a gola de um algodão descolorido,
ressona o guizo que balança do chocalho
e na graça de Colombina improvis’um sorriso.
O Arlequim corre a rua de ladeiras acetinadas,
torce os ligamentos do tendão enfraquecido,
espatifa a cara entre as pedras do cascalho,
maquiando o mundo com um rubro indeciso.
quarta-feira, 13 de abril de 2011
You used to be one of the rotten ones
and I liked you for that...
Embora não passe de hipocrisia artificial, devo confessar que me alivia saber que você está bem. Como já dizia o rapaz que morava comigo, "se você fez errado, não te consola o fato de que alguém conseguiu fazer certo?", e sim, consola mesmo. A felicidade alheia é uma verdade distante que não admite muita frescura: ou você se contenta calado ou simplesmente morre de inveja, e, dado o cenário, acho que prefiro esse meu silêncio pretensioso. Por mais que eu tenha parasitado sua libido e sua decência durante todo esse tempo, acho que ainda é possível escolher uma maneira sensata de seguir em frente, de te ver seguindo em frente. Mesmo que parte de mim se corte de dor pela dúvida do que poderia ter sido, e também pelo desperdício do que foi, esse é ao menos um preçopequeno - ou se preferir, repleto de patética canalhice - a se pagar frente à moratória do meu mau caratismo.
E bom... é isso.
PS: sim, ainda há espaço textual para Emily Haines perpetrar o que eu sou por trás de todas essas máscaras:
Now you're all gone, got your make-up on
and you're not coming back... (ain't coming back)
Park that car, drop that phone,
sleep on the floor, dream about me
Bleachin' your teeth, smiling flash
Talking trash, under your breath
Embora não passe de hipocrisia artificial, devo confessar que me alivia saber que você está bem. Como já dizia o rapaz que morava comigo, "se você fez errado, não te consola o fato de que alguém conseguiu fazer certo?", e sim, consola mesmo. A felicidade alheia é uma verdade distante que não admite muita frescura: ou você se contenta calado ou simplesmente morre de inveja, e, dado o cenário, acho que prefiro esse meu silêncio pretensioso. Por mais que eu tenha parasitado sua libido e sua decência durante todo esse tempo, acho que ainda é possível escolher uma maneira sensata de seguir em frente, de te ver seguindo em frente. Mesmo que parte de mim se corte de dor pela dúvida do que poderia ter sido, e também pelo desperdício do que foi, esse é ao menos um preço
E bom... é isso.
PS: sim, ainda há espaço textual para Emily Haines perpetrar o que eu sou por trás de todas essas máscaras:
Now you're all gone, got your make-up on
and you're not coming back... (ain't coming back)
Park that car, drop that phone,
sleep on the floor, dream about me
Bleachin' your teeth, smiling flash
Talking trash, under your breath
segunda-feira, 4 de abril de 2011
Unlikely, pressing "unlike"
Pra mim não deu, e você sabia que ia ser assim.
Engoli a falta de coerência das suas explicações por praticamente quatro estações (verão, primavera, outono e inferno), apodrecendo sozinha na noite dos sábados em que eu te dava por morto ou desaparecido. Não que isso importasse, já que uma-duas vezes por mês você aparecia pra comer e usar minha carcaça triste com uma alegria abutresca, e enquanto durasse o ato eu me sentia satisfeita. Inclusive é graças ao seu sadismo que me descobri assim, satisfeita em me sentir brutalizada conquanto me amem.
Mas agora, meu bem, agora nossa estória virou história. Minha ficha caiu e eu acabei me lembrando de que, quando quebrei a casca do meu ovo, lá onde o Judas perdeu as botas, a criatura faminta e semimorta que se arrastava pra fora do ninho não estava predestinada a se engasgar com metades. Eu nasci, querido, foi pra engolir a vida inteira.
Morremos um para o outro. E confesso: nunca pensei que morrer pudesse ser tão, tão tonificante pra mim - e também pro meu cabelo.
Engoli a falta de coerência das suas explicações por praticamente quatro estações (verão, primavera, outono e inferno), apodrecendo sozinha na noite dos sábados em que eu te dava por morto ou desaparecido. Não que isso importasse, já que uma-duas vezes por mês você aparecia pra comer e usar minha carcaça triste com uma alegria abutresca, e enquanto durasse o ato eu me sentia satisfeita. Inclusive é graças ao seu sadismo que me descobri assim, satisfeita em me sentir brutalizada conquanto me amem.
Mas agora, meu bem, agora nossa estória virou história. Minha ficha caiu e eu acabei me lembrando de que, quando quebrei a casca do meu ovo, lá onde o Judas perdeu as botas, a criatura faminta e semimorta que se arrastava pra fora do ninho não estava predestinada a se engasgar com metades. Eu nasci, querido, foi pra engolir a vida inteira.
Morremos um para o outro. E confesso: nunca pensei que morrer pudesse ser tão, tão tonificante pra mim - e também pro meu cabelo.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Rise of the robots
“O levante dos robôs, a insurreição dos circuitos. A justiça alada e armada com o metal que nos vingaria a todos, a mim e a você...”
Foi a primeira coisa que me veio à cabeça na manhã de ontem, tão clara como se a tivesse lido numa página de livro com encardenação vermelha e um marca-páginas feito com uma tira fina de cetim verde. Já repararam? É um cetim sempre verde, sempre marcando páginas. Nunca vi de outro jeito. E a frase continuava martelando, surda e alheia à minha incompreensão do uso correto da crase.
Reagi defensivamente: prometi nunca mais beber de novo e botei a culpa nos meus amigos de república, que lá no fundo eu sabia serem vampiros bascos. Mas a frase permanecia, ausente de explicação e de significado; pra mim a justiça devia ser... sei lá, cega - alada, nunca. Ai de mim se fosse alada!
Fugi pro banheiro. Reais ou não, aos olhos dos robôs somos todos iguais perante o trono.
Digo, sobre o trono.
Foi a primeira coisa que me veio à cabeça na manhã de ontem, tão clara como se a tivesse lido numa página de livro com encardenação vermelha e um marca-páginas feito com uma tira fina de cetim verde. Já repararam? É um cetim sempre verde, sempre marcando páginas. Nunca vi de outro jeito. E a frase continuava martelando, surda e alheia à minha incompreensão do uso correto da crase.
Reagi defensivamente: prometi nunca mais beber de novo e botei a culpa nos meus amigos de república, que lá no fundo eu sabia serem vampiros bascos. Mas a frase permanecia, ausente de explicação e de significado; pra mim a justiça devia ser... sei lá, cega - alada, nunca. Ai de mim se fosse alada!
Fugi pro banheiro. Reais ou não, aos olhos dos robôs somos todos iguais perante o trono.
Digo, sobre o trono.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
Maybe I dreamed of you
and maybe I’m still dreaming. Acordei com a lembrança fresca do fusca estacionado de lado na estrada de terra, esperando a manhã começar, você com um lenço na cabeça pra prender os cabelos e dizendo as coisas sempre de um jeito tão divertido. Me lembro da represa, da água morna, de ter que carregar o caiaque reclamando dos mosquitos e de ficar sentado do seu lado olhando as nuvens de chuva antes da janta ficar pronta.
Era tudo inútil mas era também maravilhoso. Aqueles sorrisos em que cada pedacinho de tempo valia a pena, de que morreríamos felizes na Itália deixando pra trás uma vida não necessariamente notável, mas cheia de coisas interessantes. Pouca coisa importava além de você, da sua voz e da noite em que cantamos Silverchair, bem baixo pra não acordar os vizinhos.
Sumimos um do outro e isso não nos matou. Essa noite sonhei com a gente e isso também não me matou. Ainda sonho com você dedilhando errado o solo de House of the Rising Sun, numa noite meio clara... e embora eu quisesse muito, não adianta, isso não me mata.
Minha triste verdade é que jamais se morre por amor. Ainda que seja muito, ainda que seja tudo, a vida não se compadece: desapiedada, insiste em viver.
Era tudo inútil mas era também maravilhoso. Aqueles sorrisos em que cada pedacinho de tempo valia a pena, de que morreríamos felizes na Itália deixando pra trás uma vida não necessariamente notável, mas cheia de coisas interessantes. Pouca coisa importava além de você, da sua voz e da noite em que cantamos Silverchair, bem baixo pra não acordar os vizinhos.
Sumimos um do outro e isso não nos matou. Essa noite sonhei com a gente e isso também não me matou. Ainda sonho com você dedilhando errado o solo de House of the Rising Sun, numa noite meio clara... e embora eu quisesse muito, não adianta, isso não me mata.
Minha triste verdade é que jamais se morre por amor. Ainda que seja muito, ainda que seja tudo, a vida não se compadece: desapiedada, insiste em viver.
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