quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu amor de amoras amorais

(e outras cacofonias ridículas)


imoral: contrário à moral; desonesto; libertino.
amoral: que não é nem contrário nem conforme à moral.


Num mundo cruelmente limitado pelas palavras, restam as analogias.

Sinto falta daquilo que não posso sentir falta, isto é, sinto falta de algo cuja falta não é passível de ser sentida. E sei que esse mesmo algo sabe de mim, que me nota e que também sente... falta.

Quero que me abracem e que me sintam como eu te sinto; cinto em volta da cintura, desafivelado, palpitante. Beijo minha boca como você me beijaria, e me pergunto: será? Hoje você pensou em mim, e se perguntou: seria?, mas a resposta soou pretensiosa.

Me afundo nos estudos, na dança, nas viagens e no álcool, tudo pra ver se encontro qualquer coisa que seja, porém, acho eu, não acho nada. Só acho que sinto um amor sempre pronto, confeitado, enfeitado - basta levar e comer. Se a procura for grande eu divido em vários pedaços, não tem problema, até empresto uma ou duas vasilhas.

Hoje acabamos com um beijo, um abraço e um carinho (pasmem, roubado; foi-se a época em que só se roubavam beijos de boca), só isso. Amanhã nos encontramos de novo, ou não, e aí sim pensamos no que fazer.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dantes em mim

Era uma carta mas também era um sonho. E pelo que me lembro começava assim:

"Essa última noite tive que descer ao inferno. Fui avisado através de uma mensagem de texto que dizia que um certo anjo de asas escuras, sob a falsa alcunha de alfaiate, havia costurado juntas duas almas distintas, uma escarlate e outra cheia de pontas, numa bolsa de couro ordinário, do tipo que se compra nas feiras mais miseráveis. E era eu quem devia descer até lá, no abismo dos abismos, para por um fim àquela injustiça. Você, entretanto, não queria que eu fosse; me ligou de um orelhão¹ da rua e se usou de todas as chantagens melodramáticas de que dispunha para me tentar me demover dessa idéia absurda. Argumentei dizendo-lhe que o crochê de almas anacrônicas era um costume por demais funesto, e que o caso deveria ser averiguado o mais breve possível.

"Pois que afinal desci. Uma vez na cena do crime, pude ver de perto o estrago: os arremates da bolsa eram grosseiros e a linha, preta. Precisava levá-la comigo a todo custo. Mas as almas eram vagamente arredondadas e, por sorte, foi precisamente este fato que pesou ao meu favor quando entrei numa discussão acalorada com o senhor das profundezas, que por sinal não possuía chifres, fogo pelo corpo ou sequer um rabo pontudo do qual eu pudesse zombar. Me senti subitamente ultrajado pela idéia de estabelecer diálogo com um diabo que não fosse diabólico, e por isso dei-lhe as costas e abandonei-o falando sozinho, como que derrotado. Mas em segredo levava as almas comigo, no bolso da frente da calça, já que o de trás estava com um rasgo tremendo.

"Como o caminho que usei para descer, fosse qual fosse, a essa hora já deveria estar intransitável, decidi que o melhor a fazer era fugir clandestinamente na barca de Caronte, mas não sem antes oferecer-lhe um generoso suborno. Não senti remorso, pois já supunha que nos domínios do inferno nem mesmo o Barqueiro se salvaria da corrupção.

"Uma vez de volta, tratei de cuidar das pobres almas, cujo estado ainda era lastimável, mas não de todo. Já tinha visto coisas piores nessa vida, e sabia que um pouco de carinho e água oxigenada (mas não mercúrio) proporcionariam alguma melhora dentro de poucos dias.

"Já nas primeiras horas da manhã, quando por fim consegui deixar a UTI e voltar para casa, encontrei acesas as luzes da sala. Era você quem, ainda acordada, me aguardava envolta num roupão e tomando um chá já quase frio. E foi sem me dirigir qualquer palavra, ou mesmo qualquer repreensão, que veio até mim e me deu um beijo demorado na boca, repleto de lascívia e preocupação. Desfiz todos os seus temores e correspondi ao seu desejo, que a essa altura era nosso desejo: elogiei-lhe com docilidade e umas poucas palavras obscenas, uma habilidade que você sempre julgou atraente; e alguns minutos depois já lhe possuía a carne e o espírito, com o devido ardor, apesar do cansaço. Foi só quando já estávamos deitados e abraçados e medicados pelo cansaço que resolvi contar-lhe o que havia se passado no inferno, mais cedo, obviamente enfeitando algumas passagens, a fim de que estas não lhe parecessem demasiadamente prosaicas.

"E no rádio, Chris Martin quase lamentava: for you I bleed myself dry..."



1: deduzi isso pelo som dos carros passando.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Reincidências

(pois que meus relâmpagos partem sempre a mesma árvore)

Longe de mim mesma, hoje desliguei-me de você, mesmo que não quisesse (quem? Eu ou você?). Decidi coisas que já aconteceram, atendi à preces de enfermos que já morreram. Compreende? Hoje eu renovei essas velharias, cumpri os prazos que já tinha perdido.

Não foi tão difícil... só é difícil quando você me vem à cabeça, me atropelando feito um trem, fazendo-me sentir vergonha da minha debilidade, vergonha de mim frente a mim.

Como poderia contar-lhe o que me sucedeu? E de novo? É você quem sempre possui as respostas, então que me dê uma!

Egotista...

Egoísta...

Sou eu quem separa você de mim, que me ponho entre nós. Ninguém pode contra isto, sabe?

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Submersão subversiva

Sons brilhantes provenientes de aquedutos tranquilos, soltos ou em rodopio. Redes de pesca são habilmente lançadas aqui e ali, a esmo e ao além, buscando enredar peixes que já não existem mais.

Já não existem mais...

Aquedutos que desaguam numa lagoa profunda, um tanto turva, onde a luz não penetra mais do que uns poucos metros além da superfície. O fundo é frio, lodoso, mudo. O fundo é morto. Mas o desprovimento de vida ainda assim consegue emprestar beleza a essa lagoa; a beleza da paz, da calmaria que nada precede e por nada espera.

Contudo, um espichão, um movimento. A lagoa pressente que algo se move em suas profundezas elíseas. Há em mim algo estranho e intruso, ela confessa ao aqueduto, algo que em breve abandonará minha escuridão e virá à tona do ar e dos sons. E gritará: a natureza destas águas não é mais morta, pois eu (presumo que é provida de consciência), eu a habito em clandestinidade. Minha semente já foi plantada, e, tal qual Yggdrasil, brotará a ponto de tornar-se mundo. Um mundo chamado...

... chamado...

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Semeando-se

Depois de passar os últimos cinco anos quebrando a cara em relacionamentos estéreis, Marina Mariflor finalmente se decidira: se tornaria árvore e passaria a viver como tal.

Inabalável, juntou três pequenas pás, um saco de terra, um punhado de adubo e um vaso de barro – rústico, porém simpático –, onde suas futuras e esperançosas raízes pudessem caber e com folga crescer.

Ainda inabalável, encheu um balde com água até a boca e esperou pelo nascer do próximo dia, no exato momento em que o sol se revelava ao mundo sob o auge de sua boa (e brilhante) vontade.

Imutavelmente inabalável, encheu o vaso com a terra, despejou um pouco de água, adubo e misturou tudo com as próprias mãos – futuramente seus graciosos galhos – para garantir que não lhe faltariam nutrientes ao longo de sua nova e amadeirada vida.

Por fim, plantou-se. Retifico: semeou-se. Sua vida floresceu, literalmente: a pele engrossou até casca virar; o cabelo esverdeou até folha s’abrir; as raízes cresceram até o vaso romper; e o coração vegetalizou-se até a tristeza escassear.

Séculos mais tarde, após ter sido desrespeitosamente cortada em tábuas por uma madeireira clandestina, Marina Mariflor ainda era uma estante de mogno insuperavelmente feliz, obrigado.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Tenso, logo existo. Rogo: tencionamos existência

O encontro do louro acobreado de suas madeixas espalhadas com o púrpura aveludado das cobertas criava o contraste mais impressionantemente belo que seus olhos - sempre ávidos - haviam observado.

Ele sentou-se na beirada da cama, ao lado dela (que acabara de deitar-se de bruços), e, empurrando o cobertor para o lado, desnudou toda a alva extensão que ia do início das costas até o princípio das nádegas. Acariciou-a: começou pelo pescoço e, muito lentamente, percorreu o caminho que descia pelo meio das costas, indo terminar com ousadia entre suas pernas, na parte detrás da virilha, que ainda permanecia coberta. Tudo liso, tudo morno.

Ela mal despertara do sono e, ainda lânguida, sentia o caminhar firme das mãos dele por sobre seu corpo nu, perscrutando e investigando cada detalhe de seus entalhes, se demorando ora nos cabelos, ora nos braços, ora nas espáduas, ora nas suas curvas de mulher. "Hora avançada", ela pensou; mas acordara imersa no desejo de passar todo aquele dia na companhia dele, e portanto a hora pouco importava. Ele, por sua vez, retribuiu tal sentimento: "eu também", pensou. "Eu também", pensou novamente, sem contudo emprestar ao pensamento a escultura sólida da palavra falada.

Apaixonara-se irrevogavelmente - no seu mais perfeito estado de sobriedade e lucidez - por esse espetáculo de traços sublimes e macios, bem ali, na meia-luz fresca que a claridade do dia tentava forçar, em vão, por entre as frestas estreitas das persianas.