sexta-feira, 18 de março de 2011

Rise of the robots

“O levante dos robôs, a insurreição dos circuitos. A justiça alada e armada com o metal que nos vingaria a todos, a mim e a você...”

Foi a primeira coisa que me veio à cabeça na manhã de ontem, tão clara como se a tivesse lido numa página de livro com encardenação vermelha e um marca-páginas feito com uma tira fina de cetim verde. Já repararam? É um cetim sempre verde, sempre marcando páginas. Nunca vi de outro jeito. E a frase continuava martelando, surda e alheia à minha incompreensão do uso correto da crase.

Reagi defensivamente: prometi nunca mais beber de novo e botei a culpa nos meus amigos de república, que lá no fundo eu sabia serem vampiros bascos. Mas a frase permanecia, ausente de explicação e de significado; pra mim a justiça devia ser... sei lá, cega - alada, nunca. Ai de mim se fosse alada!

Fugi pro banheiro. Reais ou não, aos olhos dos robôs somos todos iguais perante o trono.

Digo, sobre o trono.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Maybe I dreamed of you

and maybe I’m still dreaming. Acordei com a lembrança fresca do fusca estacionado de lado na estrada de terra, esperando a manhã começar, você com um lenço na cabeça pra prender os cabelos e dizendo as coisas sempre de um jeito tão divertido. Me lembro da represa, da água morna, de ter que carregar o caiaque reclamando dos mosquitos e de ficar sentado do seu lado olhando as nuvens de chuva antes da janta ficar pronta.

Era tudo inútil mas era também maravilhoso. Aqueles sorrisos em que cada pedacinho de tempo valia a pena, de que morreríamos felizes na Itália deixando pra trás uma vida não necessariamente notável, mas cheia de coisas interessantes. Pouca coisa importava além de você, da sua voz e da noite em que cantamos Silverchair, bem baixo pra não acordar os vizinhos.

Sumimos um do outro e isso não nos matou. Essa noite sonhei com a gente e isso também não me matou. Ainda sonho com você dedilhando errado o solo de House of the Rising Sun, numa noite meio clara... e embora eu quisesse muito, não adianta, isso não me mata.

Minha triste verdade é que jamais se morre por amor. Ainda que seja muito, ainda que seja tudo, a vida não se compadece: desapiedada, insiste em viver.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Adentro do por dentro

Estou começando a odiar os porquês de tudo, as formas mais elaboradas e abarrotadas de inquéritos.

A única coisa que tenho, que possuo, é o tempo; e, ainda assim, não sei se me será suficiente.

Olhe pra mim sem me ver: será melhor pra mim e pra você.

O mais belo de alguém não está naquilo que se conhece. O mais feio também. Mas eles são o equilíbrio necessário, portanto...

Sou ruim, sou mesquinha, nojenta e estúpida, mas o apogeu da minha estupidez, mesquinhez e maldade não interessa a ninguém, bem como minha bondade plena, minha sincera amizade e outras tolices mais.


-E. M. P., dezenove anos.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu amor de amoras amorais

(e outras cacofonias ridículas)


imoral: contrário à moral; desonesto; libertino.
amoral: que não é nem contrário nem conforme à moral.


Num mundo cruelmente limitado pelas palavras, restam as analogias.

Sinto falta daquilo que não posso sentir falta, isto é, sinto falta de algo cuja falta não é passível de ser sentida. E sei que esse mesmo algo sabe de mim, que me nota e que também sente... falta.

Quero que me abracem e que me sintam como eu te sinto; cinto em volta da cintura, desafivelado, palpitante. Beijo minha boca como você me beijaria, e me pergunto: será? Hoje você pensou em mim, e se perguntou: seria?, mas a resposta soou pretensiosa.

Me afundo nos estudos, na dança, nas viagens e no álcool, tudo pra ver se encontro qualquer coisa que seja, porém, acho eu, não acho nada. Só acho que sinto um amor sempre pronto, confeitado, enfeitado - basta levar e comer. Se a procura for grande eu divido em vários pedaços, não tem problema, até empresto uma ou duas vasilhas.

Hoje acabamos com um beijo, um abraço e um carinho (pasmem, roubado; foi-se a época em que só se roubavam beijos de boca), só isso. Amanhã nos encontramos de novo, ou não, e aí sim pensamos no que fazer.

sábado, 15 de janeiro de 2011

Dantes em mim

Era uma carta mas também era um sonho. E pelo que me lembro começava assim:

"Essa última noite tive que descer ao inferno. Fui avisado através de uma mensagem de texto que dizia que um certo anjo de asas escuras, sob a falsa alcunha de alfaiate, havia costurado juntas duas almas distintas, uma escarlate e outra cheia de pontas, numa bolsa de couro ordinário, do tipo que se compra nas feiras mais miseráveis. E era eu quem devia descer até lá, no abismo dos abismos, para por um fim àquela injustiça. Você, entretanto, não queria que eu fosse; me ligou de um orelhão¹ da rua e se usou de todas as chantagens melodramáticas de que dispunha para me tentar me demover dessa idéia absurda. Argumentei dizendo-lhe que o crochê de almas anacrônicas era um costume por demais funesto, e que o caso deveria ser averiguado o mais breve possível.

"Pois que afinal desci. Uma vez na cena do crime, pude ver de perto o estrago: os arremates da bolsa eram grosseiros e a linha, preta. Precisava levá-la comigo a todo custo. Mas as almas eram vagamente arredondadas e, por sorte, foi precisamente este fato que pesou ao meu favor quando entrei numa discussão acalorada com o senhor das profundezas, que por sinal não possuía chifres, fogo pelo corpo ou sequer um rabo pontudo do qual eu pudesse zombar. Me senti subitamente ultrajado pela idéia de estabelecer diálogo com um diabo que não fosse diabólico, e por isso dei-lhe as costas e abandonei-o falando sozinho, como que derrotado. Mas em segredo levava as almas comigo, no bolso da frente da calça, já que o de trás estava com um rasgo tremendo.

"Como o caminho que usei para descer, fosse qual fosse, a essa hora já deveria estar intransitável, decidi que o melhor a fazer era fugir clandestinamente na barca de Caronte, mas não sem antes oferecer-lhe um generoso suborno. Não senti remorso, pois já supunha que nos domínios do inferno nem mesmo o Barqueiro se salvaria da corrupção.

"Uma vez de volta, tratei de cuidar das pobres almas, cujo estado ainda era lastimável, mas não de todo. Já tinha visto coisas piores nessa vida, e sabia que um pouco de carinho e água oxigenada (mas não mercúrio) proporcionariam alguma melhora dentro de poucos dias.

"Já nas primeiras horas da manhã, quando por fim consegui deixar a UTI e voltar para casa, encontrei acesas as luzes da sala. Era você quem, ainda acordada, me aguardava envolta num roupão e tomando um chá já quase frio. E foi sem me dirigir qualquer palavra, ou mesmo qualquer repreensão, que veio até mim e me deu um beijo demorado na boca, repleto de lascívia e preocupação. Desfiz todos os seus temores e correspondi ao seu desejo, que a essa altura era nosso desejo: elogiei-lhe com docilidade e umas poucas palavras obscenas, uma habilidade que você sempre julgou atraente; e alguns minutos depois já lhe possuía a carne e o espírito, com o devido ardor, apesar do cansaço. Foi só quando já estávamos deitados e abraçados e medicados pelo cansaço que resolvi contar-lhe o que havia se passado no inferno, mais cedo, obviamente enfeitando algumas passagens, a fim de que estas não lhe parecessem demasiadamente prosaicas.

"E no rádio, Chris Martin quase lamentava: for you I bleed myself dry..."



1: deduzi isso pelo som dos carros passando.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Reincidências

(pois que meus relâmpagos partem sempre a mesma árvore)

Longe de mim mesma, hoje desliguei-me de você, mesmo que não quisesse (quem? Eu ou você?). Decidi coisas que já aconteceram, atendi à preces de enfermos que já morreram. Compreende? Hoje eu renovei essas velharias, cumpri os prazos que já tinha perdido.

Não foi tão difícil... só é difícil quando você me vem à cabeça, me atropelando feito um trem, fazendo-me sentir vergonha da minha debilidade, vergonha de mim frente a mim.

Como poderia contar-lhe o que me sucedeu? E de novo? É você quem sempre possui as respostas, então que me dê uma!

Egotista...

Egoísta...

Sou eu quem separa você de mim, que me ponho entre nós. Ninguém pode contra isto, sabe?